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Vasos de Barro

Maio 30, 2011

[Um sermão para os estudantes e professores do Instituto Bíblico Português, 19 Maio 2011]

Raramente tenho a oportunidade de falar para um grupo de pastores ou professores. Eu tenho muito respeito por vocês e a maior parte de vós tem mais experiência no ministério do que eu. Vou partilhar um pouco do meu caminho até ao ministério e falar sobre algumas ideias bíblicas que têm formado o meu ministério. Fui pastor durante cinco anos numa igreja num bairro pobre dos Estados Unidos antes de vir para Portugal. Foi uma igreja do tipo missionária, e costumava trabalhar com muitos Cristãos voluntários de outras igrejas na nossa cidade (igrejas Baptistas, Metodistas, Evangélicas, igrejas que não acham que tem uma afiliação …). Aprendi muito sobre a capacidade de todos os Cristãos para o serviço de Deus e estas ideias formam a nossa estratégia para Angola. E o meu caminho para o ministério também tem tido uma grande influência.

Fico intimidado com o acto de falar em público, embora poucas pessoas saibam isso. Foram muitos anos a virar frangos no meu estilo próprio dos pregadores. Eu lembro-me bem da minha primeira mensagem. Tinha 18 anos e pediram-me para dar uma mensagem curta ao grupo dos jovens da nossa igreja. Tinha uma semana para preparar. Eu escolhi a minha passagem, escrevi os meus pensamentos, e recitei a mensagem em frente dum espelho todos os dias. Quando chegou a hora de eu falar, levantei-me, entrei em pânico, li a minha escritura numa voz baixa e tímida, e consegui dizer uma frase só sobre a minha interpretação do texto, e sentei-me. No momento, não podia lembrar-me de nenhum dos pensamentos que tinha praticado.

Sempre tenho sido atraído pela ideia de pregar e ensinar. Eu gosto de partilhar uma escritura e comentar sobre a aplicação à nossa vida. Mas o acto de pregar e ensinar tem sido sempre outro assunto. No primeiro ano do meu curso da universidade, tinha uma aula sobre falar em público. Eu faltei os dois dias que tinha de falar em frente das colegas e fiquei no meu dormitório a tremer de nervoso. Tive de dar ambas as mensagens um dia mais tarde, e recebi uma nota boa – mas com uma penalidade por as mensagens estarem atrasadas. Dois anos depois, na minha primeira aula de pregar, costumava praticar os meus sermões em frente dos meus colegas do quarto para preparar-me para apresentar na aula. Depois dum destes sermões, eu vi o vídeo com a Teague (estávamos a namorar naquele época) e ela disse, “Estas a mover tanto os braços que pareces um pássaro. Tinha muita energia por estar tão nervoso. No meu ano final do curso, pediram-me para dirigir o louvor na nossa capela em frente de três mil pessoas. Durante a primeira canção, a minha perna direita começou a estremecer tão violentamente que devia parecer que estava a dançar. Eu estava com medo que eles me mandassem sair do púlpito por ter Espírito demais!

Depois de nove anos de ministério, mais do que 50 sermões em frente de audiências entre 15 e 500 pessoas, e centenas de lições bíblicas ensinadas, eu ainda fico um pouco nervoso quando falo em frente das pessoas. A única diferença é que tenho ficado melhor a esconder este nervoso. (Não tremo ou perco a minha voz.) Estou grato pelas pessoas que me encorajaram a continuar no ministério apesar desta dificuldade. Com prática e ajuda de muitos mentores, Deus ajudou-me a ultrapassar este obstáculo. Agora eu gosto de ensinar e pregar, e acho que Deus me tem dado algumas capacidades nesta área.

É interessante e divertido reflectir no meu desenvolvimento como pregador. Eu vejo a mão de Deus durante todo o processo e espero com antecipado prazer onde Ele vai guiar-me no futuro. As vezes o caminho é intimidante, mas tenho confiança no conhecimento que Deus nos usa, os “vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós.” (1 Coríntios 4:7)

Se o poder for de Deus e não de nós, acho que isso significa duas coisas. (1) Primeiro, nós devemos servir Deus com mais confiança e mais humildade. As vezes isto parece um paradoxo. Uma parte do meu treinamento da universidade era aprender as minhas forças e fraquezas. Ou a terminologia mais bíblica é os meus dons espirituais. Isto foi uma parte importante da correspondência de Paulo com a igreja em Corinto em 1 Coríntios 12-14. Eu sei que tenho alguma tendência para ensinar, e especialmente para administração. Sou um pouco profético; eu não tenho problemas em dizer o que eu acho que Deus quer que as pessoas ouçam. Tenho confiança nestas capacidades e os meus amigos gostam de dizer piadas como, “Ele não tem problemas com humildade.” E, realmente, a humildade não é um das minhas forças mais forte. Mas a minha confiança nestas áreas é porque Deus pode usar-me se eu estiver disposto. Também tenho muito mais fraquezas do que forças. Isso é normal. Ninguém pode fazer tudo. Por exemplo, não sou muito pastoral. Eu ia ser um mau conselheiro. A minha ideia de bom aconselhamento é dizer “Tenta com mais força” ou “Aguenta!” Eu digo isto tudo só para mostrar que podemos ter confiança e humildade ao mesmo tempo.

O nosso poder vem de Deus. Ter confiança nos dons que vêm de Deus não é arrogância. Mas vale pena perguntar à comunidade da igreja se as nossas ideias sobre os nossos próprios dons são verdadeiras. E devemos encorajar os dons de outros.

Tenham confiança. Deus vai usar-vos. É só preciso estarem dispostos e procurarem oportunidades. Eu creio que Deus vai guiar qualquer pessoa que esteja disposta e pronta para servir até às oportunidades para trabalhar no Reino de Deus. Todos têm dons espirituais e se alguém ainda não souber quais são, vai aprender com a experiência.

Paulo disse, 2 Coríntios 3:4-6.

Sejam humildes. Já disse que isso não é uma das minhas áreas mais fortes. Mas eu sei que os nossos dons vêm de Deus. Quando nós nos esquecemos disso, caimos. E provavelmente, isso vai acontecer. Já aconteceu muitas vezes no meu ministério novo. Temos de rodear-nos de mentores, colegas, e amigos fiéis que vão lembrar-nos de onde vêm os nossos talentos e bênçãos e para quem devemos usá-los.

Paulo disse, 2 Coríntios 4:5-6.

(2) A segunda coisa que significa o nosso poder vindo de Deus é que todos os Cristãos podem servir. Não. Todos os Cristãos devem servir. Todos nós temos dons. Mas aqui eu tenho um pouco de problemas com a conversa sobre dons na igreja. Porque às vezes dons tornam-se desculpas. “Não posso fazer aquele serviço porque não é o meu talento.” Todos nós temos a tendência para ficar onde nos sentimos mais confortáveis. Mas Deus também quer que nós cresçamos. Se eu não tivesse continuado a pregar, nunca ia ultrapassar o medo de falar em frente das pessoas. Vamos encontrar talentos novos, se nós experimentarmos onde Deus nos dá oportunidades. Às vezes, o nosso trabalho é só servir onde o serviço é preciso. E todos os cristãos devem fazer isso, não só os pastores.

Em certo sentido, a nossa profissão enfraquece esta doutrina bíblica. Se os pastores só tiverem os dons de pregar ou dirigir ou aconselhar, então nenhuma outra pessoa vai crescer em responsabilidade. Nós dizemos, “A liderança só se desenvolve num vácuo.” Quando nós estamos a tentar dirigir tudo, as outras pessoas não vão tomar nenhuma responsabilidade.

Para mim, esta é uma parte bem difícil de ser pastor. Quase sempre eu acho que eu podia fazer melhor trabalho do que outro. E geralmente, eu tenho razão. Mas esta é uma ideia errada. Eu creio que Deus não crê na ideia que “os fins justificam os meios.” Deus quer crescimento. Um resultado inferior às vezes é melhor, se uma pessoa puder aprender e crescer por este resultado. Os meios são mais importantes do que os fins, porque melhores meios levam ao final certo.

Mais uma história da minha experiência. Costumava organizar um grupo de cristãos que vinham à nossa igreja para mentorar um jovem. Um adulto e um jovem iam ser um par e uma vez cada semana durante o ano, eles iam ler uma lição da Bíblia, falar sobre a vida, e jogar jogos para se relacionarem. A maior parte dos nossos jovens eram das famílias monoparentais de uma mãe com quatro ou mais filhos. Havia três tipos das pessoas que vinham servir no nosso ministério. Os primeiros vêm por causa de culpa. Estas pessoas geralmente eram cristãos ricos que tinham pena das crianças pobres. O segundo grupo vinha para ser obediente a algum princípio bíblico. Geralmente, não eram as pessoas mais amáveis mas iam comover-se quando encontravam uma criança. O terceiro grupo vinha por causa do amor verdadeiro pelas crianças. Entendiam as dificuldades das famílias pobres e queriam ajudar mesmo uma criança que não quisesse ajuda.

O primeiro grupo – pessoas que vinham por culpa – sobrevivia muito menos tempo do que os outros. Eu costumava dizer, “O sentimento de culpa só dá até ao primeiro desapontamento.” As crianças pobres ainda são crianças. Não ficam sempre gratas nem animadas pela oportunidade de ler a Bíblia com um adulto. No meu primeiro ano de ministério, um casal idoso e muito simpático veio para servir. Mas foi imediatamente evidente que eles pertenciam a este primeiro grupo. Nós tentámos juntá-los em pares com crianças amáveis, mas havia muitos problemas. A menina quase nunca queria sair de casa, e a mãe não tinha interesse na igreja também. A esposa do casal todas as terças feiras costumava telefonar-me a chorar sobre esta situação. E a família do menino ia aproveitar-se muito desta família. A mãe sempre mandava o menino pedir dinheiro para mercearias. E, no início eles sempre davam – contra a nossa regra. Eu lembro-me de dizer ao meu colega, muitas vezes, este casal não vai sobreviver um ano. E, provavelmente, os meninos também nunca vão regressar à igreja. Mas, Deus estava a trabalhar. O casal acabou o ano no ministério. E depois das férias do Verão, eles regressaram. No primeiro dia, o homem disse-me, “Nós falámos muito sobre este ministério durante o verão. Queríamos deixá-lo. Mas achamos que Deus nos tem colocado aqui por uma razão. Sabemos que fizemos muitos erros no ano passado. Vamos tentar outra vez, e com os mesmos meninos.” E eles cresciam muito, para nosso espanto. Há sete anos que estão com os mesmos meninos. Agora a mãe da menina faz parte duma igreja e a menina quase sempre quer passar tempo com a mulher. E o menino vai acabar o liceu no próximo ano e é um líder na nossa igreja. Este casal é um bom exemplo para todos os outros neste programa, porque eles entendem como Deus pode usar alguém mesmo com motivos imperfeitos mas com o coração pronto a servir. Eles tinham e ainda têm o poder de Deus para servir.

Então, 2 Coríntios 4:7. O nosso poder pertence a Deus e devemos usá-lo para Deus. Não é de nós. Devemos ter confiança e ser humildes. E precisamos de encorajar todos os cristãos a servir – com as nossas palavras e as nossas acções. Porque Deus vai usar qualquer pessoa que esteja disposta, conforme a Sua vontade. Eu agradeço a Deus por nos dar o seu poder e por escolher usar-nos numa tarefa tão importante para o seu propósito.

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